
O previsível mercado de previsões
Valor Econômico 03/06/2026
ARTIGO DE JORNAL
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Se o Aiatolá acompanhasse os mercados de previsão, talvez ainda estivesse vivo. Horas antes dos ataques que mataram Khamenei em 28 de fevereiro, um trader operando sobre o pseudônimo Magamyman acumulou mais de 553 mil dólares em apostas sobre o destino do líder supremo. Não foi o único caso. Nos dias anteriores à captura de Nicolás Maduro, um soldado das forças especiais americanas apostou 33 mil dólares em contratos sobre a queda do ditador venezuelano e embolsou 436 mil. Ele participava do planejamento da operação secreta. Pesquisadores de Columbia e da Universidade de Haifa estimam que 143 milhões de dólares em lucros podem ter sido obtidos na Polymarket por indivíduos com acesso a informações privilegiadas sobre eventos que vão desde o noivado de Taylor Swift até o Prêmio Nobel da Paz.
O uso de informações sigilosas para lucro individual é moralmente errado e geopolíticamente preocupante. Apostas muito altas ou muito frequentes confessam segredos que Estados se esforçam para proteger. Um governo estrangeiro que observe apenas os lances "ousados" (acima de US$25 mil ou com chances abaixo de 35%) verá que 52% das apostas sobre ação militar estão corretas, segundo levantamento do Financial Times. Esse número é bem maior que os 14% de acerto para apostas em geral. Compreende-se, portanto, a acusação do senador americano Richard Blumenthal de que mercados de previsão se tornaram um fórum lícito para venda de informações privilegiadas de segurança nacional.
Tudo indica que permanecerão lícitos por um bom tempo. A Commodity Futures Trading Commission (CFTC), agência que regula o setor nos Estados Unidos, tem processado os estados que tentaram coibir mercados de previsão em seus territórios, alegando que compete apenas à União regular sobre o tema. Profundamente transformada desde 2024, a CFTC trocou seu conselho de cinco membros bipartidários por um só, exonerou boa parte de seus fiscais e mudou a classificação do setor, de jogos de azar para mercados de derivativos.
O argumento da CFTC (com o qual a legislação brasileira concorda) é que mercados de previsão não são bets. Nas bets, aposta-se contra a casa e é esta quem determina o preço e o prêmio. Já nos mercados preditivos, a empresa atua como uma bolsa de valores onde as partes compram e vendem contratos de receber, digamos, R$1,00 caso a inflação fique dentro da meta. Se a probabilidade estimada coletivamente para este evento é de 60%, o contrato será negociado a R$0,60 e a empresa cobrará taxas pela intermediação.
As implicações práticas da CFTC classificar esses mercados como derivativos são que estados não podem proibir ou regular o mercado, a tributação se limita a ganho de capital (não ao valor total recebido) e eventuais prejuízos podem ser usados para compensar ganhos de capital em outros ativos. Mais importante, instituições que não podem fazer jogos de azar mas podem investir em derivativos passam a poder participar desse mercado.
Wall Street aceitou o convite. A International Exchange, dona da bolsa de valores de Nova Iorque, investiu US$2 bilhões na Polymarket e a Goldman Sachs já apresenta probabilidades inferidas a partir das apostas ao lado de indicadores macroeconômicos tradicionais. Isso serve para legitimar os mercados de apostas enquanto fontes de informação, à luz de um argumento de sabedoria das massas.
Há um elemento de verdade: as eleições presidenciais dos EUA em 2024 e o Oscar 2026 ilustram o poder preditivo desses mercados frente a acontecimentos em tempo real. Um estudo de 964 pesquisas eleitorais americanas (1988-2004) descobriu que apostas no Iowa Electronic Markets superam previsões de especialistas 74% das vezes. Relatos similares foram feitos por Goldman Sachs, Deutsche Bank e pelo FED em casos de indicadores macroeconômicos. Toda maioria é burra, mas costuma acertar mais que os especialistas.
Mas cuidado! Só porque o resultado agregado das apostas frequentemente está correto não significa que a maior parte de quem aposta também o esteja. De fato, não estão. Um estudo do Wall Street Journal descobriu que 67% do lucro obtido no Polymarket são apropriadas por apenas 0,1% das contas, enquanto mais de 70% das contas perdem dinheiro. Quem ganha, segundo o levantamento do jornal, são apostadores profissionais, incluindo empresas com acesso a grandes quantidades de dados e capacidade de analisá-los.
No Brasil, a Resolução nº 5.298, de 24 de abril de 2026 do Conselho Monetário Nacional (CMN) proíbe mercados de predição sobre eventos políticos, eleitorais e outros. Não proíbe as bets (que são reguladas por outra lei, a 14.790/23) e deixa a porta aberta para mercados de previsões sobre indicadores macroeconômicos.
Esse filme chegará às telas da Faria Lima e o final é previsível: o insider confessa o que sabe em uma série de apostas surpreendentes; o investidor institucional capta a mensagem com seus modelos de Big Data e IA. Casam-se em festa esplendorosa, paga pelo apostador comum.