E se terras raras fossem suco de laranja?

Valor Econômico 11/02/2026

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(*artigo escrito em co-autoria com Victoria Prado)

O Brasil não se tornou líder mundial em suco de laranja por acaso. O domínio atual (cerca de 70% das exportações globais) foi construído ao longo de décadas – um caso raro de estratégia nacional bem-sucedida em que o país soube combinar ciência tropical, coordenação entre produtores e indústria, e uma logística pensada para competir no mercado internacional.

Bem diferente é a atuação do Brasil com relação às terras raras, elementos essenciais para a transição energética, indústria de ponta e bélica. O Brasil detém cerca de 23% das reservas globais conhecidas desses elementos mas responde por apenas uma fração mínima da produção mundial. O país aparece como potência geológica, mas não como ator industrial. Surge, então, a pergunta: o que fizemos certo com a laranja que ainda não conseguimos replicar com as terras raras?

A citricultura brasileira avançou quando combinou oportunidade externa com organização interna. Geadas sucessivas na Flórida, sobretudo nas décadas de 1970 e 1980, reduziram drasticamente a capacidade produtiva americana e abriram espaço para o Brasil. O setor reagiu de forma coordenada: ampliou pomares, estruturou o processamento industrial e escalou exportações. O país transformou uma crise internacional em estratégia nacional.

Hoje, vivemos um momento semelhante. As corridas globais pela transição energética e domínio da inteligência artificial abriram uma demanda explosiva por minerais críticos. Estados Unidos, Europa e Japão buscam fornecedores confiáveis para reduzir dependências estratégicas em um cenário geopolítico cada vez mais instável. A disposição atual desses países de pagar pela garantia de um abastecimento seguro e rastreável é sem precedentes.

Mas existem diferenças cruciais entre o mineral e a laranja, uma delas sendo o nível de concentração de controle sobre a cadeia global de suprimentos. Nas décadas de 70 e 80, nenhum país dominava o mercado de laranjas mundial. Hoje, mais de 90% da capacidade global de separação e refino de minerais críticos está concentrada na China.

Esta concentração eleva o risco à soberania das nações e aumenta a demanda pela diversificação de fornecedores. Entretanto, a cadeia das terras raras envolve etapas sucessivas e de complexidade crescente – cada etapa exige mais capital, tecnologia e escala do que a anterior. Enquanto um concentrado misto pode valer alguns dólares por quilo, óxidos individualizados multiplicam esse valor, e ímãs permanentes alcançam preços ainda superiores.

É tentador concluir que o país “precisa” subir toda a cadeia para acumular valor agregado. É necessário cautela na construção dessa cadeia. A história recente mostra projetos falidos em diversos países, investimentos bilionários que se tornam inviáveis diante da capacidade chinesa de reduzir preços de forma agressiva, sustentada por custos mais baixos e forte apoio estatal. Ainda assim, estudos recentes estimam que o mercado global de terras raras poderá alcançar algo entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões até 2032, impulsionado pela demanda por tecnologias de energia renovável, veículos elétricos, eletrônicos e o setor de defesa. Governos do G7, pressionados por riscos geopolíticos, financiaram diretamente projetos em outros países, oferecendo contratos de longo prazo com compras garantidas e mecanismos de estabilização de preços – algo impensável há dez anos.

O ambiente mudou, a janela estratégica está aberta, e o Brasil já se move. Em 2024, foi o segundo maior investidor mundial em exploração de terras raras, com cerca de 9% do orçamento global. A Serra Verde, em Goiás, tornou-se a primeira operação relevante fora da Ásia a fornecer neodímio e praseodímio (terras raras usadas na fabricação de ímãs permanentes) em escala comercial, atraindo interesse dos Estados Unidos (embora grande parte da produção até 2027 já esteja contratada por compradores chineses). O governo anunciou cerca de US$ 800 milhões em instrumentos de financiamento via FINEP e BNDES para projetos de minerais estratégicos, e um fundo privado de R$ 1 bilhão será lançado em 2026 para apoiar pesquisa e novos empreendimentos em minerais críticos.

Entretanto, para se tornar um ator global relevante, o Brasil precisará endereçar questões, como atualizar o seu processo de licenciamento mineral tornando-o mais rápido, assegurar um marco regulatório estável e aumentar o mapeamento geológico do território nacional, que hoje cobre cerca de 30% do território. Fortalecer práticas e salvaguardas ambientais também será imprescindível, uma vez que terras raras se encontram em grande parte junto a elementos radioativos e requerem injeções de químicos para sua extração.

Aqui entra uma lição mais refinada da citricultura: avançar por etapas não significa avançar devagar. No suco, o país evoluiu rapidamente nas etapas de processamento, logística e padronização, onde o risco era baixo, enquanto construía as bases científicas e industriais das etapas mais complexas. Foi velocidade seletiva, não cautela paralisante. Essa distinção importa para as terras raras. Ir lento demais pode fazer o Brasil perder competitividade: cadeias globais se reorganizam rápido e, uma vez estabelecidas, raramente mudam de fornecedor. Mas ir rápido demais, principalmente na separação química e na metalização, pode gerar investimentos inviáveis e repetir fracassos observados em outros países. A estratégia é mover-se rapidamente nas etapas de menor risco, etapas que já criam valor e posicionam o Brasil como fornecedor preferencial: beneficiamento, concentração, redução de impurezas, certificação ESG, rastreabilidade, garantia de energia limpa e confiável. Em paralelo, o país deve desenvolver capacidade de realizar a separação química dos óxidos em escala industrial. O CETEM e universidades brasileiras possuem rotas promissoras, mas ainda falta a ponte entre o laboratório e a indústria.

A infraestrutura é outro pilar. O suco de laranja conta com dutos, tanques refrigerados e terminais exclusivos no Porto de Santos. No caso das terras raras, a mineração ocorre em Goiás, a cerca de 900 quilômetros do mesmo porto. A cadeia carece de corredores logísticos dedicados, acesso estável a energia competitiva e um desenho que minimize custos e aumente previsibilidade. O país poderia definir zonas industriais especializadas próximas às jazidas, com energia limpa contratada, licenciamento ágil e incentivos territorializados para processamento inicial.

Mas o elemento decisivo será coordenação estratégica. Na laranja, o objetivo era claro: tornar-se o maior exportador mundial de suco. Tudo se alinhou a esse norte. Em terras raras, ainda não definimos qual papel buscamos: ser minerador confiável? Produtor de óxidos? Fornecedor de ligas? Integrar à cadeia de ímãs? Sem essa clareza, o capital privado hesita, cada empresa opera isoladamente, e políticas públicas tornam-se pontuais, não estruturantes.

O PL 2780/2024, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos, é um passo importante, mas sua eficácia dependerá de algo mais: regras claras de implementação, coordenação federativa e mecanismos que reduzam incertezas regulatórias para projetos de longo prazo.

O suco de laranja prova que o Brasil, quando quer, sabe fazer ciência, planejamento e investimento convergirem em uma estratégia vencedora. Terras raras são mais complexas, mais caras e mais arriscadas. Mas a oportunidade é maior. O mundo busca diversificação. O Brasil tem reservas e energia relativamente limpa. O que falta é ambição organizada.

A lição não é replicar a cadeia da laranja. É replicar a maneira de pensar: avançar rápido onde o risco é baixo, construindo as bases para uma posterior entrada nas atividades de maior risco; integrar pesquisa à indústria; e, acima de tudo, definir um objetivo nacional claro e compartilhado. A geada da Flórida não voltará, mas o momento atual oferece uma oportunidade equivalente. A questão não é se temos potencial – é se teremos determinação estratégica para transformar esse potencial em efetiva liderança, antes que a janela se feche.