
Da roda de fiar à Inteligência Artificial: Onde está o Brasil e como seguir em frente?
Valor Econômico 24/10/2025
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A história mostra que países podem se tornar desenvolvidos em uma ou duas gerações ao aproveitar ondas de transformação tecnológica – mas apenas quando combinam inovação com educação, reforço às instituições e inserção global. China, Coreia do Sul, Finlândia, Irlanda, Israel, Singapura e Taiwan, todos são alguns exemplos de países que, lançando-se à tecnologia sem deixar de escorá-la por políticas sociais, desenvolveram-se ao longo de relativamente pouco tempo. Hoje, vivemos a emergência de (pelo menos) uma nova tecnologia que, se bem aproveitada, poderia desenvolver o Brasil: a Inteligência Artificial.
Seria soberba dizer que o Brasil está bem-posicionado para surfar essa onda. Mas se não somos a cabeça do leão, tampouco somos a cauda do elefante.
São quatro os recursos escassos da IA: dados, chips, energia e pessoas. Dados temos a dádiva de ter. Com uma população grande e diversa, o Brasil tem o privilégio de gerar imensos volumes de informação – em saúde, finanças, educação e muito mais. Bases como as do SUS ou do PIX são verdadeiros tesouros nas mãos de quem sabe usá-las. O desafio, porém, está no ecossistema: dados ainda dispersos entre órgãos, em formatos incompatíveis e sob regras de acesso complexas. A falta de interoperabilidade, o receio jurídico de compartilhamento e a ausência de uma cultura sólida de governança fazem com que uma das nossas maiores riquezas siga subutilizada. Felizmente, iniciativas como a Estratégia de Governo Digital e a Infraestrutura Nacional de Dados Abertos mostram que estamos começando a endereçar essas questões.
Chips são o dia de praia que perdemos dormindo. A produção de chips requer terras raras. O Brasil detém entre 18 e 23% das reservas globais de terras raras, o que nos torna a segunda maior reserva de terras raras do planeta. Poderíamos ter uma atuação relevante no comércio internacional de terras raras se não fôssemos tão incipientes no âmbito da produção: meros 0,005% da produção global é brasileira, segundo dados do United States Geological Survey (USGS) em 2024. Exportamos o minério bruto e importamos os chips prontos, capturando o risco ambiental da mineração e deixando escapar o valor agregado da indústria.
Energia é nossa vantagem comparativa mais clara. Enquanto o mundo tem, em média, 38% de eletricidade renovável, o Brasil já conta com 84% de sua matriz elétrica limpa. Se conseguirmos endereçar o risco de curtailment sem recorrer às termelétricas, uma matriz energética como a nossa nos coloca em posição privilegiada para sediar centros de dados e treinar modelos de IA com impacto climático reduzido. Mas o potencial perece. Países desenvolvidos correm para expandir suas fontes renováveis, e a janela para nos posicionarmos como destino da indústria de IA pode se fechar rapidamente.
Pessoas são nosso maior desafio. O Brasil forma em torno de 53 mil profissionais de TI por ano, enquanto a demanda é de 159 mil, segundo a projeções da Brasscom. A formação em Engenharia também perde fôlego: entre 2018 e 2023, o número de formandos em cursos de Engenharia caiu quase 30%, de modo que em 2024 a Confederação Nacional Da Industria (CNI) estimava um déficit de 75 mil engenheiros no país.
Não faltam cérebros, mas falta um projeto nacional capaz de canalizar talento para áreas estratégicas para a indústria. Os cursos de Engenharia, com raras exceções, estão muito longes da indústria. Nesses cursos, professores não são avaliados pela inovação que produzem em setores estratégicos, mas por publicarem em revistas científicas – preferencialmente estrangeiras. Assim, muitos alunos concluem o curso de Engenharia com domínio técnico para desenvolver um produto inovador, mas sem saber demonstrar seu valor para a indústria ou elaborar um projeto para buscar financiamento. Embora existam exceções importantes, as agências públicas de fomento ainda precisam avançar no papel de articulação entre universidades e empresas, estimulando projetos conjuntos e financiando também o registro de patentes. Professores que colaboram com o setor produtivo deveriam ter critérios de avaliação específicos, com menor peso para publicações científicas e maior reconhecimento pela aplicação prática do conhecimento — inclusive por meio de uma carreira em Y que valorize trajetórias voltadas à inovação. A política de inovação só ganhará escala quando os cursos de Engenharia caminharem lado a lado das necessidades da indústria.
Mas abraçar a tecnologia não basta para desenvolver um país. Se, por um lado, há ampla base acadêmica de que as revoluções tecnológicas do passado criaram mais empregos que eliminaram, os empregos somem e surgem para pessoas distintas. Quem perde o emprego, muitas vezes, não consegue se qualificar o suficiente para empregar-se utilizando a nova tecnologia. Precisa se recolocar de outra forma. Entram aí as políticas públicas. De fato, os países citados no início do artigo que se desenvolveram rapidamente em poucas gerações não o fizeram apenas por investirem em novas tecnologias. O crescimento deles foi resultado de políticas públicas que qualificaram a mão de obra, fortaleceram instituições, promoveram a estabilidade econômica, estimularam as exportações e a atraíram investimentos domésticos e estrangeiros. Além disso, o contexto geopolítico e a integração com o mercado global também foram importantes. Foi essa combinação que criou um ambiente favorável para que a inovação tecnológica impulsionasse o desenvolvimento desses países.
Abraçar a tecnologia não é, de fato, uma escolha. Deixar de abraçá-la significa ver o mundo tornar-se mais produtivo enquanto nós ficamos para trás. Isso não é proteger empregos, pelo contrário: é tornar o Brasil cada vez mais um país de mão-de-obra barata e de pouca relevância na economia global.
A história da Bela Adormecida já nos ensina isso. Lá, uma tecnologia (a roda de fiar) traz consigo uma maldição (o sono, que, como o desemprego, põe fim ao trabalho). Querendo proteger a filha do feitiço, o rei e a rainha decidem banir a tecnologia no reino! Mas a vida toma rumos inesperados e, um dia, Aurora encontra uma roda de fiar. Sem saber o que é nem como utilizá-la, espeta o dedo! Se o rei e a rainha tivessem mostrado uma roda de fiar à filha, ensinado como usá-la, onde pode ou não pode mexer, a tragédia teria sido evitada. A cura para o feitiço de Malévola era a capacitação. Ao invés de isolar a filha na floresta aos cuidados de fadas superprotetoras, melhor teria sido educá-la para ser rainha.