
Como alguns empregos resistirão à IA
Folha de São Paulo 31/08/2025
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“As consultorias estão mortas!” — ecoou a voz do palestrante, enquanto eu me remexia na cadeira. Ele criticava o consultor que havia sentado ao seu lado no avião e usara IA para montar uma apresentação. A conclusão era previsível: “quando os clientes descobrirem que estão pagando milhões por algo que a IA faz em segundos, esse mercado desaparece!”
Oscar Wilde dizia que “as pessoas sabem o preço de tudo, mas o valor de nada.” De fato, somos ruins em reconhecer o verdadeiro valor das coisas — inclusive quando discutimos o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho.
Sim, consultores produzem apresentações. Mas não é aí que está o valor do que entregam. Eles geram valor ao transmitir confiança para que executivos avancem, ao validar estratégias de forma crível e ao mostrar a conselhos e investidores que o plano se sustenta — porque alguém qualificado e independente assinou embaixo.
Para entender quais empregos correm risco de extinção e quais resistirão, é preciso ir além das descrições de cargo e considerar a realidade sociotécnica do trabalho, em que o valor não está apenas no produto final, mas em uma série de elementos imateriais que o envolvem.
Profissionais de marketing conhecem bem essa lógica. Basta lembrar os princípios de persuasão de Robert Cialdini. Um deles é a escassez: o que é exclusivo é mais valorizado. Outro é a prova social: se todos usam algo, é porque deve ser bom. Nenhum dos dois fala sobre a qualidade intrínseca do produto e, ainda assim, ambos moldam a percepção de valor.
Numa bela demonstração de como nossa mente é irracional, esses princípios até parecem se contradizer — e, de fato, se contradizem. Mas funcionam. Há mercado tanto para champanhe quanto para Coca-Cola. A IA está no time da Coca-Cola: acessível, abundante, vendida como indispensável. Mas também há espaço para o trabalho do tipo champanhe: exclusivo, personalizado e caro. Assim como não faz sentido baratear o champanhe — justamente por ser caro ele marca ocasiões especiais — também não faz sentido tornar esse tipo de trabalho mais eficiente ou acessível. Seu valor está justamente em ser raro e custoso.
Na correria dos nossos dias, nada é mais escasso — e, portanto, mais valioso — do que tempo e atenção. Ter um consultor que dedica horas para entender um problema específico, um médico que responde com paciência a cada pergunta, um assessor que analisa detalhadamente os objetivos de um cliente — tudo isso tem um valor que a IA, por mais avançada que seja, não consegue reproduzir. Mesmo que o entregável seja parecido, a experiência é outra.
As tribos da Polinésia, estudadas pelo antropólogo Marcel Mauss, entendiam isso intuitivamente. Acreditavam que todo presente carrega não apenas um valor objetivo (o toll), mas também parte do espírito de quem o oferece (o mana). O mundo ocidental não compartilha dessas crenças, mas nossa linguagem revela traços semelhantes: nós nos “doamos” a um relacionamento, nos “entregamos” ao trabalho e nos “sacrificamos” pela família.
Ainda que toll e mana pareçam ausentes do mundo corporativo, eles reaparecem disfarçados. Empresas usam IA para filtrar currículos, mas desencorajam os candidatos a usá-la na carta de apresentação. Por quê? Porque querem ver o tempo e o esforço investidos pelo candidato. Querem sentir que aquela vaga importa para ele. Querem o mana.
O que à primeira vista soa como hipocrisia (“eu posso usar IA, você não”) é, na verdade, o reconhecimento de que o valor da candidatura não está apenas no conteúdo do documento, mas nos sinais implícitos de que houve envolvimento real.
É compreensível. Todos querem se sentir valorizados. E talvez por isso, segundo estudo recente da Harvard Business Review, o principal uso da IA por pessoas físicas não é aumentar a produtividade, mas aliviar a solidão e ajudar a encontrar sentido na vida. A busca por conexão humana é, paradoxalmente, o motor da adesão à IA — e também o motivo pelo qual certos empregos resistirão, mesmo que passem a ser oferecidos como serviço de luxo.
Vivemos num mundo solitário. Edward Hopper captou isso em seus quadros já nos anos 1930. Anos depois, o psicólogo e sobrevivente dos campos de concentração Viktor Frankl ensinaria que a saúde mental depende de encontrarmos um sentido para a vida — sentido que muitas vezes vem de relações humanas profundas e verdadeiras.
Diante disso, não surpreende que o principal uso da IA, hoje, não seja produtividade, mas companhia.
Aliás, até agora, os ganhos de produtividade prometidos pela IA não se concretizaram. Segundo relatório do Fundo Monetário Internacional, embora muitas empresas já tenham implementado soluções de IA, são raros os casos de ganhos substanciais. Eles virão, mas ainda não chegaram.
Com uma exceção.
Há um setor que abraçou a IA com entusiasmo. Ela aparece em seus relatórios, palestras, apresentações. É o setor que mais proclama que “quem não usar IA ficará para trás”. E suas empresas, de fato, estão entre as que mais estão lucrando por usá-la.
As consultorias.