A Inteligência Artificial nas salas de aula

Revista FGV 26/11/2025

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Se a Inteligência Artificial tivesse uma carteirinha de estudante, estaria estampada em grandes letras azuis: PRESENTE! Patricinha popular para uns, moleque problemático para outros, a IA nas salas de aula já é um fato: segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes) em parceria com a Educa Insights, 80% dos alunos que pretendem ingressar em uma graduação particular nos próximos 12 meses conhecem as principais ferramentas de IA e 71% as utilizam pelo menos semanalmente.

Quem faria diferente? Imagine aprender sobre Napoleão conversando com um avatar do próprio ou tirar dúvidas de matemática com um tutor sempre disponível e paciente!

Funciona! Um estudo do Banco Mundial acompanhou 800 alunos de Ensino Médio que, por seis semanas, estudaram para uma prova de papel e caneta. Alguns alunos puderam utilizar uma IA, com a orientação de seus professes, para estudar. Outros não. O estudo descobriu que os alunos que utilizaram a IA aumentaram suas notas substancialmente –o equivalente a 2 anos de estudo tradicional, segundo uma metodologia proposta em outro artigo do Banco Mundial. O estudo descobriu ainda que o impacto da IA superou o impacto de 80% das estratégias testadas em outros estudos e se mostrou tanto duradouro quanto inclusivo. Duradouro porque as notas dos alunos que utilizaram a IA permaneceram altas mesmo após as seis semanas; e inclusivo porque os benefícios da tecnologia não ficaram restritos aos melhores alunos, alcançando todos que tiveram acesso a ela – inclusive reduzindo a diferença inicial de desempenho entre meninos e meninas.

Este estudo se soma a outros que apontam na mesma direção: alunos que estudam usando IA aprimoram o seu aprendizado. Mas atenção à palavra-chave: estudam. E note bem: no estudo do Banco Mundial, os alunos estudaram com a IA sob orientação de seus professores.

Infelizmente, nem todos os alunos usam a IA desta forma. Alguns, ao invés de usá-las como mecanismo de aprendizado, utilizam-na como atalho na realização de provas, trabalhos e exercícios. Aqui, os estudos apontam um cenário mais sombrio.

Um estudo, por exemplo, observou que quando alunos que haviam sido autorizados a usar IA realizavam tarefas sem auxílio da tecnologia, desempenhavam 17% pior do que alunos que nunca tiveram IA. A conclusão dos pesquisadores é que os alunos estavam utilizando o ChatGPT não para solidificar o aprendizado, mas como uma “muleta” – o título do artigo já dizia tudo: “IAs Generativas podem prejudicar o aprendizado.”

Não só o aprendizado: o senso crítico também, segundo um segundo estudo. O impacto no senso crítico é particularmente desconcertante já que IAs às vezes alucinam, isto é,

produzem respostas erradas, mas ditas de forma convincente. Para identificar quando uma IA alucina, é preciso conhecimento (que alunos, por definição, estão em fase de adquirir) e senso crítico (que a IA, segundo o estudo, tem o condão de atrofiar). Além disso, um dos objetivos da educação é prover à sociedade cidadãos politicamente conscientes – e para isso, é preciso que a educação estimule, não atrofie, o senso crítico.

Um dos estudos mais famosos – e polêmicos, – realizado pelo MIT, chamou a atenção por literalmente observar o cérebro dos participantes, usando um eletroencefalograma. Quando participantes escreviam uma redação sem o auxílio de qualquer tecnologia, a atividade cerebral era plena, distribuída em várias áreas do cérebro e particularmente intensa nas áreas relacionadas a atenção, memória e raciocínio. Já em indivíduos que escreviam textos com o auxílio de IA, a atividade cerebral era mais tímida, silenciosa e desconectada. Indagados, 80% dos participantes que haviam utilizado IA se mostraram incapazes de citar corretamente uma única frase de suas redações. Esta porcentagem foi de 10% no grupo que não utilizou IA.

A conclusão de que a IA é prejudicial, todavia, é precipitada. Quando o grupo que havia escrito suas redações sem o auxílio da IA pôde utilizá-la para aprimorar seus textos, a atividade cerebral atingiu o seu nível máximo. Em outras palavras, não é a IA quem nos limita: é o ato de delegarmos o pensamento para a tecnologia.

Esta delegação já é praticada desde muito antes da IA. Quando foi a última vez, caro leitor, que você decorou um número de telefone ou fez contas de cabeça? Não me surpreende se você não se lembra. Com base na literatura de neurociência, um estudo aponta que deixar de praticar a memorização atrofia tanto a memória quanto a capacidade de raciocínio. Enfático, já em suas primeiras linhas critica as escolas por terem abolido a exigência de que alunos decorem datas e nomes. De fato, diz o estudo, pouco após tal exigência ser removida dos currículos escolares, o QI médio dos alunos passa a cair de uma geração para outra, revertendo assim uma longa tendência de crescimento contínuo.

Que essa reversão se inicia muito antes da popularização da IA corrobora que o problema não é a IA. O problema é deixar de pensar. A IA é sedutora nesse sentido porque sua entrega já tem aparência de arte final. O aluno que usava uma calculadora ainda precisava identificar a operação a ser feita para resolver o problema. Com a IA, basta uma foto do enunciado. Neste sentido, é muito mais fácil delegar o pensamento à IA do que a tecnologias anteriores. Um artigo da New York Magazine ostentou no título a preocupação de muita gente: Everyone is cheating their way through college.

A solução chinesa foi restringir o acesso às IAs durante a semana de provas de admissão às universidades e o Wall Street Journal propôs a volta de provas discursivas de papel e caneta. A Associação Americana de Professores, por sua vez, se aliou à OpenAI para capacitar 400 mil educadores a usar IA nas salas de aula. Parece mais sensato. Já não é viável proibir o uso de IA: ela já se encontra irremediavelmente entranhada nas salas de aula. Tampouco parece salutar proibir uma tecnologia demandada pelo mercado de trabalho – já que um dos papeis das universidades é justamente preparar profissionais para este mercado.

A IA não pode ser usada às escondidas. Precisa ser usada às claras, sob orientação de professores devidamente familiarizados com a tecnologia e seu uso no ensino. Mais que tudo, é preciso assegurar que a IA seja usada para viabilizar – nunca substituir – o raciocínio e o esforço intelectual. Para isso, é preciso desenhar atividades que obriguem o aluno a talhar a pergunta adequada e, em seguida, interpretar, criticar, complementar e aprofundar as respostas da máquina. É preciso ir além da mera entrega de trabalhos e avaliações. É preciso recuperar o verdadeiro pensar.